3 de agosto de 2005

Videolaparoscopia

Os olhos só estão querendo fazer rolar uma aguinha que eu não sei o que é e nem sei porque estão aqui... Acho que é aquela velha história de só sentir depois. Quando a gente faz uma cirurgia não sente nada na hora, todo mundo te corta, te fura, mexe pra lá, mexe pra cá, cutuca dali, catuca daqui, tira cérebro, tira vesícula, só não tira o coração... Dizem que a gente não sobrevive sem ele, esse daí eles fazem questão de trocar (quando o antigo já não funciona tão bem)... Pena. Acho que não existem tantos doadores assim disponíveis no mundo. Pra falar a verdade, acho que não existe um sequer. Deve ser por isso que, mesmo quando a gente troca, continua doente de umas outras mesmas coisas, que são até bem parecidas, só que em intensidades diferentes. É que agora se tem o coração de uma pessoa que não si, agora é o outro em mim. Mas... estranho, quando tinha aquelas velhas dores, também era o outro em mim, então, porque trocar de coração? Acho que é porque a gente sempre tem a mania de achar que a dor do outro é menor que a nossa. Aí, é só numa situação assim que percebemos que, na verdade, é tudo (quase) igual. É só que um sente mais financeiramente, o outro sente mais fisicamente e ainda tem aqueles que sentem mais sentimentalmente. Mas, depois a anestesia passa e você acorda sentindo umas dores estranhas, que não eram pra estar ali, afinal, a cirurgia era pra uma 'dita' melhora de sua condição de fudido. Anestésicos, antiinflamatórios - que devem ser tomados de quatro em quatro horas, porque senão... lá vem aquela dorzinha chata de novo!!! E depois de um tempo o corpo se acostuma e parece que tudo voltou ao lugar... mas sempre tem aqueles 'sintomazinhos' pós-operatórios que teimam em aparecer pra recordar tudo novamente e, durante esse período pós, tudo fica meio vazio... e parece que tá tudo flutuando dentro de si. Depois tudo fica aparentemente muito bem, mas as cicatrizes estarão lá, sempre, te fazendo recordar tudo novamente... E quanto ao coração, a gente tem que tomar um monte de cuidado, porque senão tem que trocar ele novamente. O problema são aqueles nossos maus hábitos. A gente sempre diz que vai mudar, mas acaba fazendo tudo igual. E quando não dá mais pra sentir o coração, a gente acaba tirando a vesícula, porque talvez seja ela a culpada de não digerir as coisas como deveriam, afinal, se ela 'entope' ou solta 'líquido dissolvedor' de menos é porque alguma coisa está errada, pelo menos meio errada.