Cigarro
Autor: Leonardo Cavalcanti
Fumo plantado, colhido, trabalhado,
depois socado: cigarro,
espiando todos os trejeitos do mundo.
Inocularam o câncer em meu cigarro,
angústia em minha vida,
rapidez no meu tempo – este é o que conta
porque sabe contar... e demolir.
Fumo que não plantei nem colhi nem trabalhei,
fumo trocado: cigarro,
que se eu não morrer do mal do câncer
não serei de virtudes para sempre:
eu vou morrer de angústia, angústia viva
ou de tempo sem conta simplesmente.
Dos males o menor: fumar minutos
sem deixar que se ajuntem em muitos anos
tão carentes de encanto há tantos dias.
Dos males o menor: fumaça e cinza.
Meu cigarro se esvai em nuvem branca
(fica a cinza no chão e no futuro),
entre os dedos é brasa – eu, apagado,
mas ardendo com ele ocultamente.


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