5 de julho de 2006

Quarta-feira

Autora: Ana Luisa Lima [pra mim, Na.Lua]


Ela perdeu-se no tempo, sentada no cantinho do terraço que dá para o quintal à espera - do quem-sabe-o-quê-?. O relógio fazia o seu trabalho. Marcava o tempo. Mas ela, anacronicamente, em outro mundo, viu seus olhos pesarem. Já sabia; seu olhar tinha-se tornado mais escuro.

O semblante caído era o de menos. Tudo que queria era fazer a dor parar. Uma falta de ar. Uma exasperação sem fim. Sem motivo – por aquele motivo de sempre – a falta. (dele?)

Seus esforços eram para lembrar os dias de carnaval. Os dias em que a alegria, ainda que fosse uma mera alegoria, preenchia. Precisava fazer aquela sensação voltar. O beijo anônimo. O braço dado com o desconhecido. Era o amor inventado. Forjado. Mas era. Fantasia, com todos os brilhos e adereços, tornada realidade pelo menos naqueles quatro dias.

E agora que o copo secou, não pode nem se iludir dizendo: - Está meio cheio. Tudo é vazio. Além do copo, a alma. Tomou o vinho; ficou o torpor.

Viu a lua deitar e o sol se acender...

Um mal para uma criatura pálida, ávida por sangue (vida), sedenta e impura. Mas. Era preciso sentir a angústia... Até o fim.

Cinzas.

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